segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Maria Fernanda, crítica, mulheres de almas mortas

Final do expediente, a escrivã agendava os compromissos do dia seguinte da ocupada delegada. Ela Fernanda tinha um olhar pensativo, a sensação de que aquele dia se repetia, de que tinha atendido as mesmas queixas. Lembrava da última mulher que havia saído do seu gabinete, assim como da maior parte delas, vítimas contumazes. Elas até trocavam de parceiros, mas a estória se repetia, com cores semelhantes, as mesmas hostilidades verbais, estados alcoólicos freqüentes dos parceiros, traições reiteradas, enfim, todos os traços do desenho perfeito das relações afetivas caóticas.

“Como ensinar “essas mulheres” a serem amadas?” – tarefa difícil.

“Essas” eram mulheres marcadas pelo passado. Embaladas falsamente pela idéia de viver o presente, mas sem o sepultamento oficial dos amores idos. As “marias” brutalizadas não era submetidas a julgamento, mas condenadas pelas perdas dos sonhos.

Na verdade, os homens que tinham se tornado detentos por aqueles crimes haviam levado consigo o encarceramento dos próprios corpos mas as almas da mulheres que destruíram.
Maria Fernanda sabia que o amor não nasce, nem cresce, menos ainda habita ou faz casa em mulheres de almas mortas.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Maria Fernanda, jogo do Brasil!!!

Como sempre Maria Fernanda chegava cedo nos lugares, mas não esperou muito e viu um amigo, com quem não tinha marcado nenhum compromisso, mas antes que as amigas chegassem sentou-se, sorriu e perguntou o trivial “tudo bem?”. O amigo, porém, respondeu: “não!”. Ela, meio confusa, não sabia ao certo se humor negro dele teria se dado pelo inusitado do encontro, e do provável incômodo de ter que, socialmente, conversar um pouco com ela. Mesmo assim, perguntou o motivo. O triste confidente, em mais uma surpresa, confessou que estava triste pelo fato de saber que sua recente ex-namorada já estava com outro.

(Fernanda, então, lembrou do passado, do dia em que acordou e havia pensado que ainda dormia. Dia inesquecível. Lembrou da mão sobre o travesseiro do lado contrário da cama, do lado que ele dormia. O pesadelo deste acordar nem era novo, repetia-se há dias. O cheiro masculino do amado nem podia ser mais percebido na cama, pois alguém, maldito alguém, havia, desavisado, trocado a roupa da cama. Nem precisava levantar e ir ao banheiro checar o resto das coisas, sabia que os únicos pertences que sobraram estavam ali mesmo, do lado da cama, dentro da gaveta. Os objetos da gaveta foram os únicos que sobraram, que ele deixou pelo simples fato de Fernanda garantiu a ele que após um acesso de raiva tinha jogado os objetos fora. Mentira! Eram fotografias deles, remédios que ele usava, pequenos pertences, pessoais, só dele. Na verdade, a Maria sequer teve coragem de ver, de perto, de abrir a gaveta e constatar o que sobrou, o que o sobrou talvez do único, único amor da vida inteira.)

De repente, Maria Fernanda despertou, e voltou a olhar para o amigo, tentando dizer alguma coisa coerente e solidária. “O que diria?

Mas logo chegaram suas amigas e um companheiro do seu triste confidente. O companheiro do então confidente, bastante eufórico, gritou: “cara, vamos logo, o jogo do Brasil vai começar!”. E subitamente o confidente sorriu, mudou de semblante, e como se fosse um novo homem, anunciou feliz e sem cerimônia para Fernanda: to indo, todas as quartas assisto as eliminatórias do Brasil!!!”.
...

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Maria Cristina, solidariedade

A porta de delegacia se abre: entra uma mulher magra e de estatura média, em vestido feminino e simples, com cabelos em desalinho, dirige-se ofegante até o balcão de atendimento.

Ela fala alto, nervosa e confusa não sabe ao certo a quem dizer e o que dizer, se a assistente social ou a escrevente. Maria Cristina, a mais nova das “marias” esperava a irmã, para carona do fim do dia, e em solidariedade a tanta aflição aproxima-se da estranha, estende-lhe as mãos e ampara a mulher. Com o rosto de lado, como se o pensamento ficasse mais denso em das duas partes do cérebro procura entender o que ela diz..

A desconhecida então coloca as mãos na face, cabisbaixa, em desespero, com a voz embargada diz: “vim confessar um crime, eu acho”... “deixei, agora a pouco, dois corpos sem vida, na minha cama, ali mesmo, onde os encontrei vivíssimos”...”mas confesso, a culpa que sinto não é da morte, ou das mortes, mas de não ter sabido antes, quando perdi, e se de fato perdi, naquela noite ou naquela cama, antes ou depois da morte, o amor daquele homem...”

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Maria Fernanda, "amigo é quem tem coragem pra ser"



Maria Fernanda, a mais velha das “marias irmãs”, diferentemente da beleza de Teresa, era uma mulher de estatura média, corpo roliço, dava a impressão de ser até um pouco gordinha. Sobrancelhas grossas lhe emprestavam um ar severo, as unhas ao natural confirmavam sua sobriedade.

Fernanda era Delegada de Polícia, não gostava de muita conversa. Trabalhava em uma Delegacia especializada para mulheres e todos os dias se deparava com vítimas das mais variadas formas de agressão, mas, naquele dia, em específico, presenciou algo que guardaria para o resto da vida.

Era 8:30 da noite e a sirene da delegacia soou alto – era um chamado de emergência, talvez com vítima fatal. A delegada resolveu ir, ela mesma, com o resto da guarda. Chegaram com algum tempo, o trânsito apesar da hora não facilitava o acesso. No local do crime, encontraram uma mulher de meia idade, um corpo já sem vida, metade sobre a rua sem asfalto e a outra metade sobre a calçada. Havia muito sangue nas mãos da vítima, estavam cortadas nas pontas dos dedos e nas palmas, como se tivesse tentando proteger o rosto ou o corpo antes dos golpes no tórax. Parecia um desses casos de brigas entre marido e mulher.

Perguntou a Delegada Fernanda se alguém poderia identificar o corpo. Ninguém respondeu.
Uma mulher ao longe olhava tudo com um pouco mais de curiosidade que o resto da multidão, o que chamou atenção da autoridade, e logo Fernanda tornou a perguntar, agora mais diretamente à mulher – “a senhora conhece a vítima."
A mulher respondeu – "não!" – "Conheço quem fez isso com ela."
Então a delegada indagou, de imediato, curiosa, quem teria sido.

"Meu marido" – respondeu a mulher. E continuou: "ele estava com raiva, bêbado, e como sempre ia me bater, então passou essa essa ..., e tentou me socorrer".
"Mas delegada..." – continuou a mulher , balançando a cabeça como um gesto de negação– "ele não ia me matar, ele ele tá acostumado só me bater... e eu, a apanhar."
"Sempre grito" – tornou a mulher – "mas nunca pensei que alguém pudesse me socorrer, e aí apareceu “essa, essa... doida” e entrou na frente."

"Como assim ? " – perguntou Fernanda. " A senhora está chamando uma pessoa que morreu por outra de "doida" ?"
"Essa mulher deu a vida pela senhora! Tenha respeito! " - Respondeu a delegada indignada.

“Morreu porque quis !” – disse a mulher. “Eu agora fiquei sem marido e pai dos meus filhos”. “ Ele não era nenhum assassino, só fez isso porquê ficou “puto” com essa “doida” que se meteu onde não devia."