domingo, 6 de dezembro de 2009

Quartas - SILVIA (parte 1)


Quarta-feira, quatro horas da tarde, doutora Maria Cristina espera por Sílvia, abre a porta da ante-sala e lá está a paciente, paciente antiga. Silva tratava-se com a psicóloga há quase quatro anos. Ela é uma mulher comum, morena, estatura média, nem magra e nem gorda – no limite, cabelos escuros pouco abaixo dos ombros, possuidora de um jeito simples, educado e simpático.

Hora da terapia, doutora Maria Cristina chama a paciente para o sofá, ela senta, acomoda-se com uma almofada onde deita os antebraços, e então diz: “doutora sabe aquele rapaz que me convidava há meses para sair?”...bem, saímos na sexta passada, achei a conversa dele tão distante do meu mundo, mesmo assim, lhe dei uma oportunidade...fomos a um passeio em dos parques da cidades, mas lá encontramos alguns conhecidos dele, e o passeio que seria nosso primeiro encontro, se tornou mais um encontro coletivo de amigos, sendo que eu era a única do grupo de não falava a mesma língua.”

Então perguntou a psicóloga: “ o passeio não foi proveitoso?”.

Sílvia respondeu: “eu não sei! ... depois disso saímos a noite e não sei o que me deu e quando me dei por conta já estava no outro dia, dormimos juntos...eu nem me interessei por ele. Olha,.não sei porque fiz isso...mas o pior doutora não é isso, é que ele não me ligou mais, e hoje já é quarta-feira e sinto que ele não irá ligar...o que a a senhora acha?”

A psicóloga então diz: “mas nós já conversamos sobre isso, sobre como suas fantasias sobre os homens, sobre o amor, sobre as paixões, e tínhamos combinado que você teria um comportamento mais reservado, que não se colocaria vulnerável em relacionamento fantasioso, ou seja, em relações em que você não passa pelas etapas indispensáveis antes de se entregar ao seu parceiro. Mas... bem, estou vendo que, mais uma vez, você voltou ao círculo vicioso de um comportamento que não te permite ter a dimensão exata nem dos seus sentimentos, previsão até das suas reações, enfim...”

E Sílvia – aflita - retorna à psicóloga e pergunta: “sim doutora, eu já sei, já sei que faço tudo errado, mas me responda – pelo amor de Deus – a senhora que conhece tudo, que sabe de tudo, ele vai me ligar?”

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Maria Fernanda, comentários sobre um bom artigo


SOZINHO.COM (título da Revista Veja desta semana)

O que pode ser pior que os dias de domingo? Ninguém em casa, a sozinha.com não razão para acordar, nem a empregada vêm trabalhar neste dia, quem vai notar que ela não levantou para o café da manhã? Mas qual a razão de levantar? Para onde ir? Todos os “amigos” estão ali no computador, quer dizer nem tantos amigos assim, é que a sozinha.com resolveu, nos últimos tempos, ou nos últimos dois anos, resolveu mudar o foco para aplacar a solidão existencial, decidiu não investir mais em fazer amigos, mas procurar um relacionamento sério nos famosos sites de relacionamento. Bem, se não fosse trágico seria cômico, na verdade os dois, isso é quase sempre indissociável, como não ser ridículo e deprimente nas suas escolhas sem que dê azo às risadas afiadas das mentas amargas e reprimidas. Isso mesmo, “quem desdenha tem mesmo é a oculta vontade de “prevaricar”. Huumm..., este texto não é de um rodriguiano é que umas situações, bem banais, da miséria da vida afetiva moderna e comum, e desperta um pouco inconformismo a quem a retrata, faz nascer uma vontade para quem escreve (e se acha que não precisa de conselhos) um desejo de gritar:“Ei moça,MUDA!”;, “Ei, tenta outra coisa!”, “Puxa, sai daí!”, mas quem teria intimidade suficiente para dizer isso para alguém que só tem “amigos superficiais” e agora nem mais isso?

Bem, respondendo a pergunta da sozinha.com, pior que os dias de domingo só mesmo o Natal!

Quem sabe a sozinha.com tenha a mesma sorte que eu, leia uma revista legal e pense um pouco sobre isso!

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

VIOLENCIA DOMÉSTICA - Maria Cristina, terapia

separada há pouco tempo Andréia só pensava em recuperar o tempo perdido, recomeçar. Ela mesma costumava dizer que não era uma retomada, mas um real começo de vida no qual o passado lhe parecia ter sido uma história que aconteceu com outra pessoa. Aos 25 anos vestir uma roupa, que nem precisava ser nova, agora era um prazer. Descobrir traços de beleza ali, acolá, em vários lugares do seu corpo era como se nunca tivesse visto a si mesma.

De repente ela ouve batidas na porta. Frenéticas. Nem era preciso abrir para saber que era Marcos. Ela o atende de pé, ele entra sem convite, alterca frases de juras de amor em tom baixo e sofrido com gritos furiosos.

- Andréia, eu te amo, vc é tudo pra mim, não consigo dormir, não consigo trabalhar, vc me reduziu a nada, a vida não tem sentido sem vc ( Marcos em tom de choro).

- OLHA QUER SABER (fecha os punhos Marcos em direção ao rosto dela) AINDA SOU CASADO COM VC! NÃO VOU EMBORA! TUDO NESSA CASA TAMBÉM É MEU. NÃO VOU TE DAR PENSÃO PRA VC SAIR TREPANDO POR AÍ. OLHA, VC TÁ RIDÍCULA COM ESTA ROUPA, TODO MUNDO TÁ COMENTANDO TEU COMPORTAMENTO DE PUTA.

Seguem-se momentos tensos. Com a mão masculina e uma força brutal ela é jogada contra a parede. Enforcada ela não pode gritar. Sem ar ela sente a sensação de que os ossos e músculos estão sendo esmagados. Indignação, brutalizada covardemente ela percebe que segurança, proteção, confiança, foram palavras vazias quando se trata de violência doméstica.

Na sala da dra Maria Cristina, anos depois, em terapia, Andréia tenta relatar o significado de MEDO, tenta reproduzir sua insegurança. Impossível. O corredor negro que abriga esse sentimento no cérebro humano é povoado de monstros com faces e vozes indescritíveis. O MEDO não é um sentimento que ela experimenta somente ao se avizinhar uma possível e concreta nova agressão. O MEDO é um estado latente, é como um veneno que modifica a face de quem sente.
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