Cinco horas da tarde, horário de Sílvia ir ao consultório, todas as quartas. A porta da sala de espera da psiquiatra se abre e entra Sílvia bastante triste, visivelmente abatida. Ela parecia não lavar o cabelo há semanas, o rosto não exibia nenhum traço de maquiagem. Como de costume a psiquiatra foi receber Sílvia, mas logo que viu a paciente naquele estado se apressou para dar as mãos e conduzi-la em um gesto amigo para dentro da sala de terapia.
Pergunta a dra. Maria Cristina: “ O que houve? Estou te achando abatida.”
Sílvia: “ Doutora eu resolvi tirar aquele homem da minha cabeça, eu pensei que ia ficar doida, mandava mensagens para ele quase diariamente no celular, às vezes ele respondia, às vezes não. Algumas vezes ele me disse que gostaria de “sair” comigo novamente pois eu era “gostosa". Mas doutora, “gostosa” de quê?”
A psiquiatra então disse: “Mas vcs se encontraram novamente?”
Sílvia: “Apenas duas vezes, aquela que contei a senhora, que nem valeu a pena, e outra vez, por acaso em um barzinho, mas dessa segunda vez a coisa pegou fogo.”
Cristina então pondera: “Sim? E vc gostou de estar com ele? Então foi bom".
Sílvia: “Nem sei dizer se foi bom, ele me deu bastante bebida. Em casa, na intimidade, notei que ele gostou muito. É...mas depois disso, nunca mais...."
E continua Cristina: “Doutora quase surtei de saudade, de aflição, de ansiedade e nada dele me ligar. Mandava mensagens e nada. Daí, ontem, eu encontrei uma pessoa que me falou sobre ele, que era frio e evitava compromissos. Mas o pior foi quando ela me que se queixava de certas "mulheres insistentes". “Ô doutora aquilo acabou comigo! Doeu tanto!”
Pensativa, Sílvia retorna a contar: “Aí eu pensei em salvar um pouco da minha dignidade e mandei uma mensagem para ele sobre o acontecido. Depois avisei que iria apagar o número dele da minha agenda.”
Cristina já curiosa: “E ele te respondeu, te tratou mal? Vcs discutiram? O que aconteceu?”
Sílvia: “Ele não respondeu. Então liguei e vi uma mensagem da telefônica informando que aquele número não existia mais."
Cristina, apoia a paciente com as mãos, perplexa: “O quê?”
Dra. Cristina olha o relógio, vendo que estava encerrado o horário da sessão diz com pesar: “Sílvia, como vc está sentido essa atitude dele, qual o significado disso pra vc? Podemos falar mais disso na próxima sessão”.
Sílvia: “Tudo bem doutora. Fiquei triste. Agora vejo que sinto também um certo alívio.”
Cristina: “Que bom! Que bom que vc está reagindo dessa forma, isso significa que vc está fechando esse ciclo de forma positiva e madura.”
A paciente, em meio a um sorriso sem graça, abraça a psiquiatra e diz: “Sabe doutora, penso que os homens deveriam mudar o número do telefone mais vezes.”
segunda-feira, 3 de maio de 2010
terça-feira, 9 de março de 2010
QUARTAS - SILVIA (parte 2)
Sílvia entra para sua habitual consulta às quartas. Mal a psicóloga abre a porta da sala Sílvia entra sorrindo e ofegante diz: -“boa tarde doutora, tenho novidades!”.
A médica então cumprimenta a cliente: -“boa tarde, como vai?”.
Recomeça a paciente: - “doutora Cristina eu tenho novidades. Bem, hoje fui a um evento no trabalho daquele rapaz com quem saí, lembra? Pois bem, na saída do auditório para sala de recepção ele estava na porta, mas passei rapidamente como se não o visse, pois ele não me ligou mais, assim, achei melhor não cumprimentá-lo. Depois, durante a recepção vi que ele vinha na minha direção, então entrei rapidamente no banheiro e me escondi. O que a senhora acha doutora? Acha que ele vinha na minha direção para falar comigo? O que a senhora acha que ele iria me dizer? O que a senhora acha que eu deveria ter respondido?
A médica olha pensativa para a paciente, respira fundo e diz: -“bem, não é possível responder a tantas hipóteses, só temos uma certeza, a de que ele saiu com vc, tinha seu número de telefone, e nunca mais ligou.”
A paciente então diz: -“sim doutora, disso eu sei, mas o que gostaria de saber da senhora, que consegue ler os pensamentos das pessoas, é se ele me viu, se ele vinha mesmo na minha direção, se ele vinha falar comigo e o que eu deveria ter respondido."
A médica então cumprimenta a cliente: -“boa tarde, como vai?”.
Recomeça a paciente: - “doutora Cristina eu tenho novidades. Bem, hoje fui a um evento no trabalho daquele rapaz com quem saí, lembra? Pois bem, na saída do auditório para sala de recepção ele estava na porta, mas passei rapidamente como se não o visse, pois ele não me ligou mais, assim, achei melhor não cumprimentá-lo. Depois, durante a recepção vi que ele vinha na minha direção, então entrei rapidamente no banheiro e me escondi. O que a senhora acha doutora? Acha que ele vinha na minha direção para falar comigo? O que a senhora acha que ele iria me dizer? O que a senhora acha que eu deveria ter respondido?
A médica olha pensativa para a paciente, respira fundo e diz: -“bem, não é possível responder a tantas hipóteses, só temos uma certeza, a de que ele saiu com vc, tinha seu número de telefone, e nunca mais ligou.”
A paciente então diz: -“sim doutora, disso eu sei, mas o que gostaria de saber da senhora, que consegue ler os pensamentos das pessoas, é se ele me viu, se ele vinha mesmo na minha direção, se ele vinha falar comigo e o que eu deveria ter respondido."
"Pulsos Sujos" (Maria Fernanda)
A angústia me consume desde o início da tarde, não sei o que fazer, qual o canto da casa ficar ou se sair, pra onde ir.
Saio, uma vontade de chorar, choro.
Vergonha da minha vergonha, vergonha da minha fraqueza inconfessável. Medo. Medo do que? Medo do acaso.
Mas sempre dominei esse acaso. Esse acaso tem sido cassado, arrancado, extirpado em todos os momentos. Tive lutas incessantes. Muralhas sangraram pelos meus pulsos, corajosamente segui em frente mesmo suada, cansada e suja de do líquido que move a vida, mesmo assim fui em frente.
Mas porque eu só agora vejo que preciso de um abraço? É que quero recarregar minhas forças, mas não sei como, nem sei mesmo como as perdi. Mas o demônio sabe! Ele percebe que os instantes de paz não tem sido suficientes para que eu me recomponha, e me procura pelos cantos e frestas. Eu me finjo de morta, mas ele sempre me acha e me apunhala sem piedade.
Assim, quase a beira da minha morte eu contenho meu último choro, poupo minhas poucas forças, e de repente para minha surpresa eu percebo o rosto de pavor do meu algoz, consigo ver - sem crer - o medo que ele tem mim. Ele também está assustado! Cansado e também sem forças, daí - simplesmente - me deixa e desiste!
Perplexos, ficamos eu e ele, sem saber quanto tempo ainda lutaríamos a até morte de um de nós.
Saio, uma vontade de chorar, choro.
Vergonha da minha vergonha, vergonha da minha fraqueza inconfessável. Medo. Medo do que? Medo do acaso.
Mas sempre dominei esse acaso. Esse acaso tem sido cassado, arrancado, extirpado em todos os momentos. Tive lutas incessantes. Muralhas sangraram pelos meus pulsos, corajosamente segui em frente mesmo suada, cansada e suja de do líquido que move a vida, mesmo assim fui em frente.
Mas porque eu só agora vejo que preciso de um abraço? É que quero recarregar minhas forças, mas não sei como, nem sei mesmo como as perdi. Mas o demônio sabe! Ele percebe que os instantes de paz não tem sido suficientes para que eu me recomponha, e me procura pelos cantos e frestas. Eu me finjo de morta, mas ele sempre me acha e me apunhala sem piedade.
Assim, quase a beira da minha morte eu contenho meu último choro, poupo minhas poucas forças, e de repente para minha surpresa eu percebo o rosto de pavor do meu algoz, consigo ver - sem crer - o medo que ele tem mim. Ele também está assustado! Cansado e também sem forças, daí - simplesmente - me deixa e desiste!
Perplexos, ficamos eu e ele, sem saber quanto tempo ainda lutaríamos a até morte de um de nós.
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