quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Caixa de Memórias - Maria Teresa

Eu, criança, mantinha um diário mental, como esse blog, cheio de lembranças. Gostava de ter a idéia que minha mente era como se fosse uma caixa de guardados, nela ia deixando minhas recordações. Aos poucos , crescendo, fui percebendo que recordar não era o mesmo que reviver. Tentava voltar no breve passado, viver uma emoção repetidas vezes, esse era um dos meus hábitos preferidos.

Com algum tempo - ainda eu abrisse a caixa - vez por outra - os pensamentos e sentimentos assumiam cores cada vez mais apagadas e por vezes distorcidas. Um dia, já adulta, por algum motivo ou outro - tentei lembrar da sensação de solidão e liberdade que experimentava ao percorrer os caminhos que fazia para casa depois das aulas, tentei lembrar da independência de comprar com “meu” dinheiro o pão queijo ao sair da escola, – mas, por mais que forçasse a caixa imaginária não via mais meus guardados.

Percebi – sem que pudesse mudar isso - que a minha caixinha poderia até ser um cofre forte e seguro para guardar os meus queridos e/ou doloridos segredos, porém a chave do tempo nunca mais me permitiria abrir aquelas memórias. A garota da minha adolescência – real dona dos guardados - havia-se perdido para sempre, cresceu – tornou-se adulta - e levou consigo o real significado daqueles tempos.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Maria Fernanda, quero um pouco de espaço

Desde criança sempre quis ser notada. Notada significava dizer: como foi seu dia? Ter alguém com quem conversar, e compreenda-se por diálogo: falar e ouvir. Ao invés disso, sentia-me vigiada. Não me era perguntado o que eu sentia, nem o que eu vivia; quem queria saber de mim ia direto à fonte de toda minha privacidade, lia meu diário, espiava entre meus livros, minhas gavetas, meus guardados. Depois te tudo devassado, meus segredos se tornavam alvo de sujas especulações, eu não me sentia só invadida, mas deturpada em meus sentimentos ou às vezes simples pensamentos. Com o tempo percebi que ser invisível era a melhor política, esgueirar-me pelos cantos. A minha tristeza era sempre ignorada, nenhuma fonte de curiosidade ela motivava. Mas qualquer traço de pequena alegria era como uma pólvora que explodia aos olhos dos curiosos, e mais uma vez estava eu, sendo a atração, seguida das humilhações, e das decorrentes quebras dos sonhos recém construídos.

Porque não me deixam em paz? Sonhei tanto em envelhecer, em me tornar insignificante, imperceptível. Mas tinha sempre meu outro lado, que queria viver e ser feliz, enfim, livre. Seria isso possível?

Cidade pequena, calor intenso. Presa no carro com ou sem ar condicionado. Interna na sala do escritório. Nas ruas o calor castiga, impõe a solidão e recolhimento debaixo dos lugares mais frescos. Mesmo assim, quem não me nota? Rebelde eu sou, mas a ira dos curiosos e dos donos da vida alheia insiste em me atingir, bem no rosto, como o bafo de 40º. E sou forte, eu resisto, mas também sou fraca, me canso, e preciso do descanso, preciso ter forças para refazer meus sonhos, e protegê-los dos que insistem em minar minha alegria e entusiasmo.

Não quero em casa vigias, que me observem, percebam meus passos. EU SOU LIVRE! Se importem comigo ou ME DEIXEM EM PAZ! Deixe-me chorar. Deixem-me consolar com o pouco espaço que o sol escaldante e os “curiosos” não ocupam. Deixem-me neste pouco espaço de liberdade, que nesse momento, é o único que consigo ocupar. Por favor, não quero mais me esgueirar. Não me atormente com mais CULPAS, eu sei as minhas falhas, sofro fardo que elas representam.

Cresci, meu apartamento é pequeno, sem escadas para me esconder. Sobra-se o chuveiro, pois mesmo o quarto, ainda que fechado, parece que já foi descoberto, já sabem sobre minha cama, meus lençóis, meus travesseiros. Quando será que olharão o chuveiro?