segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Maria Fernanda, crítica, mulheres de almas mortas

Final do expediente, a escrivã agendava os compromissos do dia seguinte da ocupada delegada. Ela Fernanda tinha um olhar pensativo, a sensação de que aquele dia se repetia, de que tinha atendido as mesmas queixas. Lembrava da última mulher que havia saído do seu gabinete, assim como da maior parte delas, vítimas contumazes. Elas até trocavam de parceiros, mas a estória se repetia, com cores semelhantes, as mesmas hostilidades verbais, estados alcoólicos freqüentes dos parceiros, traições reiteradas, enfim, todos os traços do desenho perfeito das relações afetivas caóticas.

“Como ensinar “essas mulheres” a serem amadas?” – tarefa difícil.

“Essas” eram mulheres marcadas pelo passado. Embaladas falsamente pela idéia de viver o presente, mas sem o sepultamento oficial dos amores idos. As “marias” brutalizadas não era submetidas a julgamento, mas condenadas pelas perdas dos sonhos.

Na verdade, os homens que tinham se tornado detentos por aqueles crimes haviam levado consigo o encarceramento dos próprios corpos mas as almas da mulheres que destruíram.
Maria Fernanda sabia que o amor não nasce, nem cresce, menos ainda habita ou faz casa em mulheres de almas mortas.

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